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Monday, April 9, 2018

MARQUÊS DE SADE: ENGANAI-ME SEMPRE ASSIM




No mundo há poucos seres tão libertinos quanto o cardeal de.... do qual, considerando-se que ainda seja homem saudável e vigoroso, permiti-me guardar o nome em segredo. Sua eminência tem um acordo feito em Roma com uma dessas mulheres cuja profissão oficiosa é fornecer aos devassos objetos necessários ao alimento de suas paixões; todas as manhãs ela leva até ele uma jovem de no máximo treze a catorze anos, a qual monsenhor só usufrui da maneira inconveniente com que os italianos não raro se deliciam, de modo que a vestal, saindo das mãos de Sua Grandeza tão virgem quanto antes, possa, uma segunda vez, ser vendida como nova a algum libertino mais decente. A matrona, totalmente a par das máximas do cardeal, não encontrando, certo dia, a seu alcance, o objeto cotidiano o qual era obrigação sua fornecer, imaginou travestir como uma menina um belíssimo menino do coro da igreja do chefe dos apóstolos; colocaram-lhe uma peruca, uma touca, saiotes, e todo o aparato falso que se devia impor ao santo homem de Deus. Todavia, não se lhe pôde
conferir o que realmente ter-lhe-ia assegurado semelhança total com o sexo que ele imitava; mas essa circunstância muito pouco embaraçava a alcoviteira...

- Ele não pôs as mãos lá nestes dias, - dizia àquela dentre suas companheiras que a ajudava na trapaça ele só visitará, com toda a certeza, o que assemelha essa criança a todas as meninas do universo; assim, nada devemos temer...

A mãezinha se equivocara; decerto ignorava que um cardeal italiano era homem de tato muito delicado, e gosto apurado o bastante para se enganar em semelhantes coisas; chega a vítima, o grande padre a imola, mas ao estremecer pela terceira vez:

- Per Dio santo, - exclama o homem de Deus - sono ingannato, questo bambino è ragazzo, mai non fu putana!
-  
E ele verifica... Contudo, nada acontecendo de muito embaraçoso para um habitante da santa cidade nesse lance aventuroso, sua eminência prossegue, dizendo, talvez, como esse camponês a quem se serviu trufas como batatas: Enganai-me sempre assim. Mas quando a operação terminou:

-   Senhora, - diz ele à aia - não vos censuro por vossa confusão.

-   Monsenhor, desculpai-me.

Como vos disse, não vos censuro, mas quando isso acontecer-vos de novo, não deixai de advertir-me, porque... o que eu não vir no primeiro momento, verei neste aqui.



Sunday, April 1, 2018

MARQUÊS DE SADE: HÁ LUGAR PARA DOIS




Uma belíssima burguesa da rua Saint-Honoré, de aproximadamente vinte e dois anos, gorduchinha e roliça, carnes as mais viçosas e apetitosas, todas as formas modelares ainda que um pouco cheias, e que acrescentava a tão fartos encantos presença de espírito, vivacidade, e gosto o mais aguçado por todos os prazeres que lhe proibiam as rigorosas leis do himeneu, decidira, havia quase um ano, arranjar dois ajudantes para seu marido que, sendo velho e feio, a ela não somente desagradava muito, como também cumpria mal, se não raramente, os deveres que, talvez, com um pouco mais de desempenho, poderiam acalmar a exigente Dolmène - assim se chamava nossa bela burguesa. Nada mais bem combinado do que os encontros marcados com esses dois amantes: Des-Roues, jovem militar, ficava normalmente das quatro às cinco horas da tarde e das cinco e meia às sete chegava Dolbreuse, jovem negociante com o rosto mais bonito que se pode ver. Era impossível fixar outros momentos; eram os únicos em que a sra. Dolmène estava tranqüila: de manhã, era preciso estar na loja e, à tarde, também tinha de aparecer por lá algumas vezes, ou então o marido voltava, e deviam falar de seus negócios. Por sinal, a sra. Dolmène havia confidenciado a uma de suas amigas que ela gostava muito que os momentos de prazer se sucedessem assim muito próximos um do outro: a chama da imaginação não se apagava, ela assegurava; desse modo, nada mais temo do que passar de um prazer a outro; não era difícil retomar a ação, pois a sra. Dolmène era uma criatura encantadora que calculava ao máximo todas as sensações do amor; pouquíssimas mulheres conheciam-nas como ela própria e, em virtude dos seus talentos, reconhecera que, depois de muito meditar, dois amantes valiam muito mais do que um; com respeito à reputação, era quase a mesma coisa, um encobria o outro; poderiam se equivocar, poderia ser sempre o mesmo a entrar e sair várias vezes durante o dia, e com relação ao prazer, que diferença! A sra. Dolmène, que temia em particular a gravidez, bem segura de que seu marido jamais com ela cometeria a loucura de lhe arruinar a cintura, havia igualmente imaginado que, com dois amantes, havia muito menos risco, quanto ao que temia, do que com um, porque, dizia ela, na condição,de excelente anatomista, dois frutos se destruíam mutuamente.

Certo dia a ordem fixada nos encontros veio a se alterar, e nossos dois amantes, que nunca se tinham visto, conheceram-se de maneira engraçada, conforme mostraremos. Des-Roues foi o primeiro, mas chegara muito tarde, e como se o diabo tivesse se intrometido, Dolbreuse, que era o segundo, chegou um pouco mais cedo.

O leitor inteligente percebe de imediato que, da combinação desses dois pequenos erros, deveria acontecer, infelizmente, um encontro infalível: e assim sucedeu. Porém, mencionaremos como isso se deu e, se possível, ocupemo-nos desse assunto com toda decência e moderação que tal assunto já por si muito licencioso, exige.

Por obra de um capricho bastante bizarro - mas tão comum entre os homens - nosso jovem militar, cansado do papel de amante, quis, por uns momentos, representar o da amante; em lugar de ser amorosamente abraçado por sua divindade, quis, por sua vez, abraçá-la: em resumo, o que está embaixo, coloca-o em cima, e, por essa inversão de posição, inclinada sobre o altar onde normalmente se oferecia o sacrifício, era sra. Dolmène que, nua como a Vênus calipígia, e encontrando-se estendida sobre seu amante, apresentava, diante da porta do quarto onde se celebravam os mistérios, o que os gregos adoravam com devoção na estátua que acabamos de mencionar, essa parte mui bela que, em suma - sem sair à procura de exemplos tão remotos - encontra tantos adoradores em Paris. Tal era a atitude quando Dolbreuse, acostumado a entrar sem dificuldade, chega cantarolando, e vê por um ângulo o que uma mulher verdadeiramente honesta não deve, segundo dizem, jamais mostrar.

O que teria causado grande prazer a muitas pessoas fez com que Dolbreuse recuasse. - O que vejo? - exclamou - ... traidora... é isso que me reservas?

A sra. Dolmène que, naquele momento, se encontrava numa dessas crises em que uma mulher age infinitamente melhor do que raciocina, resolve mostrar-se audaciosa:

- Que diabo tens tu, - diz ela ao segundo Adônis - sem deixar de se entregar ao outro - não vejo nisso nada que te cause muito pesar; não nos perturbes, meu amigo, e contenta-te com o que te resta; como bem podes notar, há lugar para dois.

Dolbreuse, não conseguindo deixar de rir -se do sangue-frio de sua amante, pensou que o mais simples era seguir o conselho dela, não se fez de rogado, e dizem que os três lucraram com isso.





Monday, March 26, 2018

MARQUÊS DE SADE: A PUDICA OU O ENCONTRO IMPREVISTO



O sr. Sernenval, que contava aproximadamente quarenta anos, e que possuía doze ou quinze mil libras de renda que despendia de modo despreocupado em Paris, não se ocupando mais do comércio do qual outrora fizera sua profissão, e se contentando, por sua total distinção, com o título honorífico de burguês de Paris, com vistas ao Conselho municipal, desposara havia poucos anos a filha de um dos seus antigos confrades, de mais ou menos vinte e quatro anos. Nada havia de tão viçoso, tão roliço, tão gorduchinho e branco quanto a sra. Sernenval: não fora ela feita como as Graças, mas era apetitosa como a mãe dos amores; não tinha o porte de uma rainha, mas possuía tamanha volúpia no conjunto, olhos tão ternos e cheios de langores, tão bonita boca, pescoço tão firme e torneado, e todo o resto do corpo tão propício a causar o nascimento do desejo, que bem poucas mulheres belas havia em Paris às quais se teria preferido. Entretanto, a sra. Sernenval, com tão diversos encantos físicos, tinha um defeito capital no espírito... uma pudicícia insuportável, uma devoção exagerada que ao marido impossibilitava persuadi-la de aparecer em suas reuniões sociais. Levando ao extremo a beatice, muito raramente a sra. Sernenval passaria uma noite inteira em companhia do seu marido, e, mesmo nos momentos em que ela condescendia conceder-lhe esse favor, era sempre com excessiva reserva, - uma camisola que jamais despia. Uma abertura artisticamente acrescentada ao pórtico do templo do hímen só permitia a entrada com as cláusulas expressas de nenhuma apalpadela desonesta, e de nenhuma conjunção carnal; ter- se-ia enfurecido a sra. Sernenval, se se tivesse desejado ultrapassar os limites que a modéstia dela impunha, e o marido que tentasse, talvez corresse o risco de não mais cair nas boas graças dessa casta e virtuosa fêmea. O sr. Sernenval ria-se de todas essas beatices, mas, como adorasse a mulher, condescendia em respeitar-lhe as tibiezas; vez por outra, entretanto, tentava aconselhá-la; provava- lhe, do modo mais claro, que não é passando a vida nas igrejas ou junto aos padres que uma mulher honesta cumpre realmente os seus deveres, dentre os quais os primeiros são os de sua casa, por força, negligenciados por uma devota; e que ela haveria de honrar muito mais as imagens do Eterno, vivendo de uma maneira honesta no mundo, do que indo trancafiar-se nos claustros; que havia infinitamente mais perigo em se tratando dos modelos de Maria do que desses amigos verdadeiros dos quais ela recusava ridiculamente a companhia.

- É preciso que eu vos conheça e que vos ame tanto quanto faço - acrescentava a isso o sr. Sernenval - para que não me inquiete convosco durante todas essas práticas religiosas. Quem me assegura que algumas vezes vós não vos esqueceis sobre o leito macio dos levitas, em vez de ao pé dos altares de Deus? Nada há de tão perigoso quanto todos esses padres patifes; é sempre falando de Deus que seduzem nossas mulheres e filhas, e é sempre em seu nome que eles nos desonram ou enganam. Acreditai-me, cara amiga, possível é ser honesto em qualquer lugar; nem na cela do bonzo, nem no nicho do ídolo, a virtude ergue seu templo, mas no coração de uma mulher casta, e as companhias decentes que vos ofereço nada têm que se alie ao culto que vós lhe deveis... Vós passais por uma de suas mais fiéis sectárias: creio nisso; mas que prova possuo de que realmente mereceis tal reputação? Eu acreditaria bem mais se vos visse resistir a astuciosos ataques; não é a mulher que se coloca na condição de nunca ser seduzida, cuja virtude é a que mais se pode apurar; mas a que está bastante segura de si mesma para se expor a tudo sem nada temer.

Sobre isso a sra. Sernenval nada respondia, pois que, de fato, não havia resposta para esse argumento, mas ela chorava - expediente comum das mulheres fracas, seduzidas ou falsas - e seu marido não ousava prosseguir com a lição.

As coisas estavam nesse estado quando um antigo amigo de Sernenval, de nome Desportes, chegou de Nancy para vê-lo, e para concluir, ao mesmo tempo, alguns negócios que tinha na capital. Desportes era um bon vivant, de idade semelhante à do seu amigo, e não odiava nenhum dos prazeres dos quais a natureza benfazeja permitiu ao homem fazer uso para esquecer os males com que o abate; ele não resiste absolutamente à oferta que lhe faz Sernenval de hospedá-lo em sua casa, regozija -se com a satisfação de vê-lo, e surpreende-se concomitantemente com a severidade de sua mulher, a qual, no momento em que toma conhecimento desse estranho na casa, recusa-se absolutamente a aparecer, e nem ao menos desce mais para as refeições. Desportes crê incomodar, quer se hospedar alhures; Sernenval o impede de fazê-lo, e confessa-lhe, enfim, todos os ridículos de sua terna mulher.

- Devemos perdoá-la, - dizia o marido crédulo ela compensa essas faltas com tantas virtudes que acabou obtendo minha indulgência, e ouso te pedir a tua.

- Assim seja, - responde Desportes - desde que não seja nada pessoal.... esqueço tudo, e os defeitos da mulher de quem estimo nunca serão, a meus olhos, senão qualidades respeitáveis.

Sernenval abraça o amigo, e só conversam sobre prazeres.

Se a parvoíce de dois ou três ineptos que, há cinqüenta anos, administram em Paris o negócio das mulheres públicas e, especialmente, a de um pulha espanhol que no último reinado ganhava cem mil écus por ano na espécie de inquirição da qual se vai falar, se o medíocre rigorismo dessas pessoas não tivesse estupidamente imaginado que uma das mais belas célebres maneiras de conduzir o Estado, um dos meios mais seguros do governo, uma das bases, em suma, da virtude, era ordenar essas criaturas a prestar conta exata da parte de seu corpo com que se regala ao máximo o indivíduo que a corteja; se não tivesse imaginado que, entre um homem que observa um seio, por exemplo, e outro que se ocupa de um quadril, há decididamente a mesma diferença que entre um homem probo e um canalha, e que aquele que se acha em um ou em outro desses casos (depende do que esteja em moda) deve necessariamente ser o maior inimigo do Estado, sem essas desprezíveis vilanias, como já disse; certo é que dois estimados burgueses, um dos quais tendo uma mulher beata, o outro sendo solteiro, poderiam ir passar muito legitimamente uma hora ou duas entre as moças; mas quanto a essas absurdas infâmias intimidando o prazer dos cidadãos, não ocorreu a Sernenval fazer sequer com que Desportes vislumbrasse esse tipo de dissipação. Este, percebendo isso e não imaginando os motivos, perguntou ao amigo por que ele já lhe tendo proposto todos os prazeres da capital, não lhe havia falado desse em absoluto. Sernenval objeta o estúpido inquérito, Desportes graceja sobre isso, e, não obstante as listas de m., os relatórios de comissários, os depoimentos de oficiais de polícia e todos os outros ramos dessa velhacaria estabelecidos pelo chefe quanto esse negócio dos prazeres do labrego de Lutécia, diz a seu amigo que ele queria, com efeito, jantar com prostitutas.

- Escuta, - respondeu Sernenval - concordo, inclusive te servirei de introdutor como prova de meu modo filosófico de pensar sobre esse assunto, mas por uma delicadeza que espero não ma censures, pelos sentimentos que devo, em resumo, à minha mulher e que não está em mim dominar, permitirás que eu não partilhe de teus prazeres; eu os proporcionarei a ti, e ficarei nisso.

Desportes zomba um instante de seu amigo, mas vendo-o decidido a não se deixar de modo algum enveredar por esse caminho, a tudo consente, e partem.

A célebre S. J. foi a sacerdotisa no templo da qual Sernenval imaginou sacrificar seu amigo.

- É de uma mulher segura que precisamos, diz Sernenval - de uma mulher honesta; esse amigo, para o qual imploro vossos cuidados, está em Paris por pouco tempo apenas; ele não gostaria de levar más recordações para sua província e lá arruinar vossa reputação; diga-nos com franqueza se tendes o que ele precisa e o que desejais a fim de proporcionar-lhe o deleite.

- Ouçam, - retoma S. J. - bem vejo a quem tenho a honra de me dirigir, não são pessoas como vós que eu engano; vou, portanto, falar-vos como mulher honesta, e meus procedimentos vos provarão que eu o sou. Tenho o que vos interessa; trata-se apenas de pagar o preço justo, é uma mulher encantadora, uma criatura que vos arrebatará assim que a escutardes... é, enfim, o que denominamos um banquete de padre, e vós sabeis que a essas pessoas sendo meus melhores clientes, não lhes dou o que tenho de pior... Faz três dias que o bispo de M. por ela deu-me vinte luíses, o arcebispo de R. fê-la ganhar cinqüenta ontem e, ainda nesta manhã, ela me valeu trinta do coadjutor de... Eu vô-la ofereço por dez, e isso, na verdade, senhores, para merecer a honra de vossa estima; mas é preciso ser pontual no dia e na hora, ela está sob o controle do marido, e de um marido ciumento que só tem olhos para ela; só podendo gozar instantes furtivos, é necessário não perder nem um minuto daqueles que tivermos combinado...

Desportes regateou um pouco; nunca uma prostituta fez com que se lhe pagasse dez luíses em toda a Lorena; quanto mais ele procurava baixar o preço, mais ela elogiava a mercadoria; em resumo, ele acabou por concordar e, no dia seguinte, dez horas em ponto foi a hora marcada para o encontro. Sernenval, não desejando de modo algum entrar a meias nesse divertimento, não concordou com um jantar, em troca do qual haviam combinado essas horas de prazer de Desportes, muito satisfeito por resolver tal assunto bem cedo para poder ocupar-se o resto do dia de outros deveres mais essenciais. Soa a hora; nossos dois amigos chegam à casa de sua encantadora alcoviteira; um boudoir, onde reina apenas uma luz tênue e luxuriosa, guarda a deusa, lugar onde Desportes vai oferecer em sacrifício.

- Felizardo filho do amor, - diz-lhe Sernenval, empurrando-o para o santuário - voa para os braços voluptuosos que a ti se estendem, e só depois me vem falar de teus prazeres; regozijar-me-ei por tua felicidade, e minha alegria será ainda mais pura porque não serei absolutamente invejoso.

Nossa catecúmena aparece; três horas inteiras mal bastam à sua homenagem; ele retorna, enfim, para assegurar a seu amigo que em sua vida nada viu de semelhante, e que a própria mãe dos amores não lhe teria proporcionado tantos prazeres.

- Ela é, portanto, deliciosa - diz Sernenval, meio inflamado.

- Deliciosa? Ah, não encontraria expressão que te pudesse reproduzir o que ela é, e mesmo agora que a visão deve esvanecer-se, sinto que não há pincel capaz de pintar as torrentes das delícias que me inundaram. Ela acrescenta às graças que recebeu da natureza essa arte tão sensual que lhes confere validade; conhece um certo tempero, possui no gozo tão real ardor que ainda me encontro inebriado... Oh! meu amigo, experimenta, rogo-te, por mais habituado que estejas às belezas de Paris, estou bem seguro de que me confessarás que nunca alguma outra valeu, a teus olhos, o preço desta aqui.

Sernenval, sempre firme, contudo emocionado por certa curiosidade, pede a S. J. para que faça passar essa moça diante dele, no momento em que sair do aposento... Ela consente, os dois amigos mantêm-se de pé para a poder observar mais, e a princesa passa com altivez...

- Pelos céus, - Sernenval transtorna-se quando reconhece sua mulher - é ela... é essa pudica que, não ousando descer dos seus aposentos por pudor diante de um amigo de seu esposo, tem a impudência de vir se prostituir em tal casa.

- Miserável! exclama, furioso...

Mas é em vão que tenta se lançar sobre essa pérfida criatura; ela o reconhecera bem no momento em que foi vista, e já ia longe da casa. Sernenval, num estado difícil de expressar, quer incriminar S. J.; esta se desculpa por sua ignorância, ela assegura Sernenval que há mais de dez anos, isto é, bem anteriormente ao casamento desse infortunado, essa jovem criatura participa de encontros em sua casa.

- A celerada!, - exclama o infeliz esposo, a quem o amigo tenta, em vão, consolar... - mas não, que isso termine! o desprezo é tudo que lhe devo; que ela seja para sempre alvo do meu, e que eu tenha aprendido a lição, por meio dessa cruel prova, que nunca é segundo a máscara hipócrita das mulheres que se as deve tentar julgar.

Sernenval retornou a sua casa; porém, não mais encontrou sua prostituta: ela já tomara seu rumo, e ele não se incomodou; seu amigo, não mais podendo suportar sua presença depois do acontecido, despediu-se dele no dia seguinte, e o infortunado Sernenval, isolado, com vergonha e cheio de dor, escreveu um in-quarto contra as esposas hipócritas, o qual não corrigiu em absoluto as mulheres, e que os homens jamais leram.




Saturday, March 17, 2018

MARQUÊS DE SADE: O MARIDO QUE RECEBEU UMA LIÇÃO



Um homem já na decadência pensou em se casar embora até aquele momento tivesse passado sem mulher, e é possível que a coisa mais tola que fez, de acordo com os seus sentimentos, tenha sido unir-se a uma jovem de dezoito anos, com o rosto mais atraente do mundo e com a cintura não menos proveitosa. Bernac -- esse era o seu nome --, fazia tolice ainda maior desposando uma mulher, porquanto se exercitava o menos possível nos prazeres que concede o himeneu, e muito faltava para que as manias por que trocava os castos e delicados prazeres dos laços conjugais agradassem a uma jovem do porte da srta. Lurcie, pois assim se chamava a infeliz a quem Bernac acabava de participar seu destino. Desde a primeira noite de núpcias, ele relatou suas preferências à jovem esposa, após tê-la feito jurar nada revelar aos pais dela; tratava-se assim diz o célebre Montesquieu - de procedimento ignominioso que leva de volta à infância: a jovem mulher, na postura de uma menina que merece um corretivo, se prestava então por quinze ou vinte minutos, mais ou menos, aos caprichos bestiais do velho esposo, e era à vista dessa cena que ele conseguia experimentar a deliciosa embriaguez do prazer que todo homem mais bem organizado que Bernac decerto teria desejado sentir apenas nos braços encantadores de Lurcie. A experiência pareceu um pouco dura àquela moça delicada, bela, educada no conforto mas longe do pedantismo; entretanto, como lhe houvessem recomendado ser submissa, julgou tratar-se aquilo de hábito comum aos esposos, e talvez até mesmo Bernac tivesse contribuído para que pensasse assim, e ela se submeteu de modo mais honesto possível à depravação do seu sátiro; todos os dias era a mesma coisa e, com freqüência, até duas vezes em vez de uma. Ao cabo de dois anos, a srta. Lurcie, que continuamos a chamar sempre por esse nome, de vez que na ocasião se achava tão virgem quanto no primeiro dia de suas núpcias, perdeu o pai e a mãe, e com eles a esperança de fazer abrandar seus sofrimentos, como começava a figurar já havia algum tempo. Essa perda só fez tornar Bernac mais audacioso, e se mantivera dentro de alguns limites, por respeito aos pais de sua mulher enquanto vivos, não demonstrou mais nenhuma moderação tão logo ela os perdeu e ele percebeu-a incapaz de quem a pudesse vingar. O que parecia de início apenas um divertimento, tornou-se pouco a pouco um verdadeiro tormento; essa srta. Lurcie não podia mais suportar isso, seu coração se exasperava, e ela sonhava o tempo todo com vingança. Via pouquíssimas pessoas; o marido a isolava tanto quanto possível. Apesar de todas as admoestações de Bernac, o primo dela, o cavalheiro d'Aldour, não deixara em absoluto de ver sua parenta; esse jovem tinha um belo rosto e não era sem interesse que teimava em visitar a prima; como fosse bastante conhecido de toda a gente, o ciumento, temendo que escarnecessem dele, não ousava muito afastar-se de sua casa...

A srta. Lurcie deitara os olhos nesse parente para se libertar da escravidão na qual vivia: ouvia diariamente as belas palavras do primo, e, por fim, revelou-se por completo a ele, tudo lhe confessando.

- Vingai-me desse homem vil -- disse-lhe --, e fazei isso por meio de uma cena que o impressione o bastante para ele próprio jamais ousar falar dela a alguém: o dia em que obtiverdes êxito há de ser o dia de vossa glória; apenas a esse preço serei vossa.

Encantado, d'Aldour tudo promete e só se empenha para o sucesso de uma aventura que vai lhe assegurar tão belos monumentos. Quando tudo está pronto:

- Senhor -- diz ele um dia a Bernac --, tenho a honra de ser muito íntimo de vós, e em vós confio o bastante para não deixar de vos participar o matrimônio secreto que acabo de contrair.

-Um matrimônio secreto? -- diz Bernac, encantado de se ver livre do rival que o fazia tremer.

-   Sim, senhor! Acabo de me unir ao destino de uma esposa encantadora, e amanhã é o dia em que ela me deve tornar feliz; confesso que se trata de uma moça sem bens; mas o que importa isso se o que tenho basta aos dois? Caso-me, é verdade, com uma família inteira, quatro irmãs que vivem juntas, porém, como me apraz a companhia delas, para mim é apenas
uma felicidade a mais... Muito me alegraria, senhor -- continua o jovem --, se minha prima e vós me désseis amanhã a honra de vir ao menos ao banquete de núpcias.

- Senhor, saio muito pouco, e minha mulher menos ainda; vivemos ambos num grande retiro; ela está contente assim, e eu não a incomodo absolutamente.

-  Conheço vossas preferências, senhor -- retruca d'Aldour --, e respondo-vos que sereis servido a contento... amo a solidão tanto quanto vós e, por sinal, tenho razões de discrição, como já disse: é na campanha, faz um belo dia, tudo vos convida e dou-vos minha palavra de honra que estaremos absolutamente sozinhos.
Lurcie a propósito deixa entrever certo desejo; seu marido não ousa contrariá-la diante de d'Aldour, e combinam o passeio.

-   Devíeis querer tal coisa -- diz o homem, irritado no momento em que se vê a sós com sua mulher --, bem sabeis que absolutamente não me preocupo com tudo isso; saberei como dar fim a todos esses vossos desejos, e previno-vos de que em pouco tempo planejo isolar-vos numa de minhas terras, onde não vereis ninguém mais além de mim.
    
E como o pretexto, com ou sem fundamento, acrescentasse muito aos atrativos das cenas luxuriosas às quais Bernac inventava planos quando lhe faltava o realismo, aproveitou a oportunidade, fez Lurcie passar ao seu quarto e lhe disse:

-   Iremos... sim, eu prometi, mas pagareis caro pelo desejo que demonstrastes...

A infeliz, acreditando estar próxima do desfecho, suporta tudo sem se queixar.

- Fazei o que vos aprouver, senhor -- diz ela humildemente --, vós me concedestes uma graça, sou-vos muito grata.

Tanta doçura, tanta resignação teria desarmado qualquer um que não tivesse um coração tornado empedernido pelos vícios como o do libertino Bernac, mas nada é capaz de o deter; satisfaz-se, dorme tranqüilo; no dia seguinte, d'Aldour, conforme o combinado, vem buscar o casal e partem.

- Vereis -- diz o jovem primo de Lurcie, entrando com o marido e a mulher numa casa completamente isolada --, vereis que isso não tem lá muito jeito de uma festa popular; nenhum coche, nenhum lacaio, já vos disse; estamos completamente sozinhos.

Entretanto, quatro mulheres altas de uns trinta anos, fortes, vigorosas e de cinco pés e meio de altura cada uma, avançam sobre a escadaria e vêm receber o sr. e a sra. Bernac da maneira mais honesta.

-   Eis minha mulher, senhor -- diz d'Aldour, apresentando uma delas --, e estas três aqui são suas irmãs; casamo-nos esta manhã ao alvorecer, em Paris, e os esperamos para celebrar as bodas.
    
Tudo se passa segundo as leis da mútua cortesia; depois de algum tempo de reunião no salão, onde Bernac se convence, para grande surpresa sua, que ele se encontra tão só quanto o pôde desejar, um lacaio anuncia o almoço, e sentam-se à mesa. Nada mais descontraído que a refeição, as quatro pretensas irmãs muito acostumadas aos repentes, trouxeram à mesa toda a vivacidade e todo o bom humor possíveis, mas como a decência não é esquecida um minuto sequer, Bernac, enganado até o fim, crê-se na melhor companhia do mundo; todavia, Lurcie encantada de ver o seu tirano numa situação difícil, divertia-se com seu primo, e, decidida em desespero de causa a renunciar enfim a uma continência que não lhe trouxera até aquele momento senão tristezas e lágrimas, bebia com ele o champanhe, inundando-o com os mais ternos olhares; nossas heroínas, que tinham de buscar forças, consagravam-se igualmente à libação, e Bernac, motivado, ainda sem conceber senão uma alegria simples em tais circunstâncias, não se poupava mais do que as outras pessoas. Entretanto, como era mister não perder a razão, d'Aldour interrompe a tempo e propõe passar ao café.

-   Por Deus, meu primo -- diz ele, assim que Bernac se encontra afetado --, consenti em vir visitar minha casa; sei que sois homem de bom gosto; eu a comprei e a mobiliei propositadamente para meu casamento, mas temo ter feito um mau negócio; dir-me-eis vossa opinião, por favor.

-   De bom grado - diz Bernac -, ninguém como eu entende mais dessas coisas, e estimarei tudo a mais ou menos dez luíses de diferença, garanto.

D'Aldour lança-se sobre as escadas dando a mão a rua bela prima, posicionam Bernac no meio das quatro irmãs, e penetram nessa ordem num apartamento muito escuro e muito afastado, absolutamente ao extremo da casa.

- É aqui a câmara nupcial -- diz d'Aldour ao velho ciumento --, vedes essa cama, meu primo; eis onde a esposa vai deixar de ser virgem; ela já não arde de desejos tempo demais?
-  
Era o sinal: no mesmo instante, nossas quatro malandras saltam sobre Bernac, armadas cada uma de um punhado de varas; retiram-lhe as calças, duas delas o imobilizam, e as outras duas se alternam para fustigá-lo e enquanto o molestam vigorosamente:

- Meu caro primo -- exclama d'Aldour --, não vos disse ontem que seríeis servido a contento? Não imaginei nada melhor para agradar-vos do que devolver-vos o que dais todos os dias a essa encantadora mulher; vós não sois bastante bárbaro para fazer-lhe uma coisa que não gostaríeis de receber; assim, orgulho-me de fazer-vos minha corte; falta ainda uma circunstância, portanto, à cerimônia; minha prima, segundo dizem, embora há muito esteja ao vosso lado, ainda é tão virgem como se vós tivésseis vos casado apenas ontem; tal abandono de vossa parte provém unicamente da ignorância, seguramente; garanto que é por que não sabeis como proceder... vou mostrar-vos, meu amigo.

Ao dizer isso, tendo ao fundo uma agradável música, o homem fogoso deita sua prima na cama e a torna mulher aos olhos de seu indigno esposo... Só nesse momento termina a cerimônia.

-   Senhor -- diz d'Aldour a Bernac ao descer do altar --, achareis a lição talvez um pouco severa, mas admiti que o ultraje a que submetíeis vossa esposa era, pelo menos, igual; não sou, nem quero ser, amante de vossa mulher; ei-la, devolvo-a, mas vos aconselho a comportar-vos doravante de maneira mais honesta com ela, caso contrário, ela ainda encontraria em mim um vingador que vos pouparia ainda menos.

-   Senhora -- diz Bernac furioso --, na verdade esse procedimento...

-   É o que vós merecestes -- responde Lurcie mas se ele vos desagrada, entretanto, tendes toda a liberdade de expressá-lo; exporemos cada um nossas razões, e veremos de qual dos dois rirá o povo.

Bernac, confuso, reconhece seus erros, não inventa mais sofismas para legitimá-los, lança-se aos joelhos de sua mulher para rogar seu perdão: Lurcie, terna e generosa, o levanta e abraça, ambos retornam a sua casa, e não sei que meios utilizou Bernac, mas desde esse dia, nunca a capital viu casal mais unido, amigos mais ternos e esposos mais virtuosos.


Monday, March 12, 2018

MARQUÊS DE SADE: O MARIDO PADRE (Conto Provençal)


Entre a cidade de Menerbe, no condado de Avinon, e a de Apt, em Provença, há um pequeno convento de carmelitas isolado, denominado Saint -Hilaire, assentado no cimo de uma montanha onde até mesmo às cabras é difícil o pasto; esse pequeno sítio é aproximadamente como a cloaca de todas as comunidades vizinhas aos carmelitas; ali, cada uma delas relega o que a desonra, de onde não é difícil inferir quão puro deve ser o grupo de pessoas que freqüenta essa casa. Bêbados, devassos, sodomitas, jogadores; são esses, mais ou menos, os nobres integrantes desse grupo, reclusos que, nesse asilo escandaloso, o quanto podem ofertam a Deus almas que o mundo rejeita. Perto dali, um ou dois castelos e o burgo de Menerbe, o qual se acha apenas a uma légua de Saint-Hilaire - eis todo o mundo desses bons religiosos que, malgrado sua batina e condição, estão, entretanto, longe de encontrar abertas todas as portas de quantos estão à sua volta.

Havia muito o padre Gabriel, um dos santos desse eremitério, cobiçava certa mulher de Menerbe, cujo marido, um rematado corno, chamava-se Rodin. A mulher dele era uma moreninha, de vinte e oito anos, olhar leviano e nádegas roliças, a qual parecia constituir em todos os aspectos lauto banquete para um monge. No que tange ao sr. Rodin, este era homem bom, aumentando o seu patrimônio sem dizer nada a ninguém: havia sido negociante de panos, magistrado, e era, pois, o que se poderia chamar um burguês honesto; contudo, não muito seguro das virtudes de sua cara- metade, era ele sagaz o bastante para saber que o verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar de os estar usando; estudara para tornar-se padre, falava latim como Cícero, e jogava bem amiúde o jogo de damas com o padre Gabriel que, cortejador astuto e amável, sabia que é preciso adular um pouco o marido de cuja mulher se deseja possuir. Era um verdadeiro modelo dos filhos de Elias, esse padre Gabriel: dir-se-ia que toda a raça humana podia tranqüilamente contar com ele para multiplicar-se; um legítimo fazedor de filhos, espadaúdo, cintura de uma alna* , rosto perverso e trigueiro, sobrancelhas como as de Júpiter, tendo seis pés de altura e aquilo que é a característica principal de um carmelita, feito, conforme se diz, segundo os moldes dos mais belos jumentos da província. A que mulher um libertino assim não haveria de agradar soberbamente? Desse modo, esse homem se prestava de maneira extraordinária aos propósitos da sra. Rodin, que estava muito longe de encontrar tão sublimes qualidades no bom senhor que os pais lhe haviam dado por esposo. Conforme já dissemos, o sr. Rodin parecia fazer vistas grossas a tudo, sem ser, por isso, menos ciumento, nada dizendo, mas ficando por ali, e fazendo isso nas diversas vezes em que o queriam bem longe. Entretanto, a ocasião era boa. A ingênua Rodin simplesmente havia dito a seu amante que apenas aguardava o momento para corresponder aos desejos que lhe pareciam fortes demais para que continuasse a opor- lhes resistência, e padre Gabriel, por seu turno, fizera com que a sra. Rodin percebesse que ele estava pronto a satisfazê-la... Além disso, num breve momento em que Rodin fora obrigado a sair , Gabriel mostrara à sua encantadora amante uma dessas coisas que fazem com que uma mulher se decida, por mais que hesite... só faltava, portanto, a ocasião.

Num dia em que Rodin saiu para almoçar com seu amigo de Saint-Hilaire, com a idéia de o convidar para uma caçada, e depois de ter esvaziado algumas garrafas de vinho de Lanerte, Gabriel imaginou encontrar na circunstância o instante propício à realização dos seus desejos.
-   Oh, por Deus, senhor magistrado, - diz o monge ao amigo - como estou contente de vos ver hoje! Não poderíeis ter vindo num momento mais oportuno do que este; ando às voltas com um caso da maior importância, no qual haveríeis de ser a mim de serventia sem par.

-   Do que se trata, padre?

-   Conheceis Renoult, de nossa cidade.

-   Renoult, o chapeleiro.

-   Precisamente.

-   E então?

-   Pois bem, esse patife me deve cem écus* , e acabo de saber que ele se acha às portas da falência; talvez agora, enquanto vos falo, ele já tenha abandonado o Condado... preciso muitíssimo correr até lá, mas não posso fazê-lo.

-   O que vos impede?

-   Minha missa, por Deus! A missa que devo celebrar; antes a missa fosse para o diabo, e os cem écus voltassem para o meu bolso.
-   Não compreendo: não vos podem fazer um favor?

-   Oh, na verdade sim, um favor! Somos três aqui; se não celebrarmos todos os dias três missas, o superior, que nunca as celebra, nos denunciaria à Roma; mas existe um meio de me ajudardes, meu caro; vede se podeis fazê-lo; só depende de vós.
-   Por Deus! De bom grado! Do que se trata?

-   Estou sozinho aqui com o sacristão; as duas primeiras missas foram celebradas, nossos monges já saíram, ninguém suspeitará do ardil; os fiéis serão poucos, alguns camponeses, e quando muito, talvez, essa senhorazinha tão devota que mora no castelo de... a meia légua daqui; criatura angélica que, à força da austeridade, julga poder reparar todas as estroinices do marido; creio que me dissestes que estudastes para ser padre.
-   Certamente.

-   Pois bem, deveis ter aprendido a rezar a missa.

-   Faço-o como um arcebispo.

-   Ó meu caro e bom amigo! - prossegue Gabriel lançando-se ao pescoço de Rodin - são dez horas agora; por Deus, vesti meu hábito, esperai soar a décima primeira hora; então celebrai a missa, suplico-vos; nosso irmão sacristão é um bom diabo, e nunca nos trairá; àqueles que julgarem não me reconhecer, dir-lhes-emos que é um novo monge, quanto aos outros, os deixaremos em erro; correrei ao encontro de Renoult, esse velhaco, darei cabo dele ou recuperarei meu dinheiro, estando de volta em duas horas. O senhor me aguardará, ordenará que grelhem os linguados, preparem os ovos e busquem o vinho; na volta, almoçaremos, e a caça... sim, meu amigo, a caça creio que há de ser boa dessa vez: segundo se disse, viu-se pelas redondezas um animal de chifres, por Deus! Quero que o agarremos, ainda que tenhamos de nos defender de vinte processos do senhor da região!

-   Vosso plano é bom - diz Rodin - e, para vos fazer um favor, não há, decerto, nada que eu não faça; contudo, não haveria pecado nisso?

-    
-   Quanto a pecados, meu amigo, nada direi; haveria algum, talvez, em executar-se mal a coisa; porém, ao fazer isso sem que se esteja investido de poderes para tanto, tudo o que dissentes e nada são a mesma coisa. Acreditai em mim; sou casuísta, não há em tal conduta o que se possa chamar pecado venial.
-    
-   Mas seria preciso repetir a liturgia?

-   E como não? Essas palavras são virtuosas apenas em nossa boca, mas também esta é virtuosa em nós... reparai, meu amigo, que se eu pronunciasse tais palavras deitado em cima de vossa mulher, ainda assim eu havia de metamorfosear em deus o templo onde sacrificais...

-    
Não, não, meu caro; só nós possuímos a virtude da transubstanciação; pronunciaríeis vinte mil vezes as palavras, e nunca faríeis descer algo dos céus; ademais, bem amiúde conosco a cerimônia fracassa por completo; e, aqui, é a fé que faz tudo; com um pouco de fé transportaríamos montanhas, vós sabeis, Jesus Cristo o disse, mas quem não tem fé nada faz.. eu, por exemplo, se nas vezes em que realizo a cerimônia penso mais nas moças ou nas mulheres da assembléia do que no diabo dessa folha de pão que revolvo em meus dedos, acreditais que faço algo acontecer? Seria mais fácil eu crer no Alcorão que enfiar isso na minha cabeça. Vossa missa será, portanto, quase tão boa quanto a minha; assim, meu caro, agi sem escrúpulo, e, sobretudo, tende coragem.

-   Pelos céus, - diz Rodin - é que tenho uma fome devoradora! Ainda faltam duas horas para o almoço!
-    
-   E o que vos impede de comer um pouco? Aqui tendes alguma coisa.

-   E a tal missa que é preciso celebrar?

-   Por Deus! O que há de mal nisso? Acreditais que Deus se há de macular mais caindo numa barriga cheia em vez de numa vazia? O diabo me carregue se não é a mesma coisa a comida estar em cima ou embaixo! Meu caro, se eu dissesse em Roma todas as vezes que almoço antes de celebrar minha missa, passaria minha vida na estrada. Além disso, não sois padre, nossas regras não vos podem constranger; ireis tão-somente dar certa imagem da missa, não ireis celebrá-Ia; conseqüentemente, podereis fazer tudo o que quiserdes antes ou depois, inclusive beijar vossa mulher, caso ela aqui estivesse; não se trata de agir como eu; não é celebrar, nem consumar o sacrifício.

-   Prossigamos - diz Rodin - hei de fazê-lo, Podeis ficar tranqüilo.

-   Bem - diz Gabriel, dando uma escapadela, depois de fazer boas recomendações do amigo ao sacristão... - contai comigo, meu caro; antes de duas horas estarei aqui - e, satisfeito, o monge vai embora.

-    
Não é difícil imaginar que ele chega apressado à casa da mulher do magistrado; que ela se admira de vê-lo, julgando-o em companhia de seu marido; que ela lhe pergunta a razão de visita tão imprevista.

-   Apressemo-nos, minha cara - diz o monge, esbaforido - apressemo-nos! Temos para nós apenas um instante... um copo de vinho, e mãos à obra!
-    
-   Mas, e quanto a meu marido?

-   Ele celebra a missa.

-   Celebra a missa?

-   Pelo sangue de Cristo, sim, mimosa - responde o carmelita, atirando a sra. Rodin ao leito - sim, alma pura, fiz de seu marido um padre, e, enquanto o farsante celebra um mistério divino, apressemo-nos em levar a cabo um profano...

O monge era vigoroso; a uma mulher, era difícil opor-se-lhe quando ele a agarrava: suas razões, por sinal, eram tão convincentes... ele se põe a persuadir a sra. Rodin, e, não se cansando de fazê-lo a uma jovem lasciva de vinte e oito anos, com um temperamento típico da gente de Provença, repete algumas vezes suas demonstrações.

-   Mas, meu anjo - diz, enfim, a beldade, perfeitamente persuadida - sabeis que se esgota o tempo... devemos nos separar: se nossos prazeres devem durar apenas o tempo de uma missa, talvez ele já esteja há muito no ite missa est.
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-   Não, não, minha querida - diz o carmelita, apresentando outro argumento à sra. Rodin - deixai estar, meu coração, temos todo o tempo do mundo! Uma vez mais, minha cara amiga, uma vez mais! Esses noviços não vão tão rápido quanto nós... uma vez mais, vos peço! Apostaria que o corno ainda não ergueu a hóstia consagrada.

Todavia, mister foi que se despedissem, não sem promessas de se reverem; tracejaram novos ardis, e Gabriel foi encontrar-se com Rodin; este havia celebrado a missa tão bem quanto um bispo.

-   Apenas o quod aures - diz ele - embaraçou-me um pouco; eu queria comer em vez de beber, mas o sacristão fez com que eu me recompusesse; e quanto aos cem écus, padre?
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Recuperei-os, meu filho; o patife quis resistir, peguei de um forcado, dei-lhe umas pauladas, juro-vos, na cabeça e noutras partes.

Entretanto, a diversão termina; nossos dois amigos vão à caça e, ao regressar, Rodin conta à sua mulher o favor que prestou a Gabriel.

Celebrei a missa - dizia o grande tolo, rindo com todas as forças - sim, pelo corpo de Cristo! Eu celebrava a missa como um verdadeiro vigário, enquanto nosso amigo media as espáduas de Renoult com um forcado... Ele dava com a vara; que dizeis disso, minha vida? Colocava galhos na fronte; ah! boa e querida mãezinha! como essa história é engraçada, e como os cornos me fazem rir! E vós, minha amiga, o que fazíeis enquanto eu celebrava a missa?

Ah! meu amigo - responde a mulher - parecia inspiração dos céus! Observai de que modo nos ocupavam de todo, a um e a outro, as coisas do céu, sem que disso suspeitássemos; enquanto celebráveis a missa, eu entoava essa bela oração que a Virgem dirige a Gabriel quando este fora anunciar-lhe que ela ficaria grávida pela intervenção do Espírito Santo. Assim seja, meu amigo! Seremos salvos, com toda certeza, enquanto ações tão boas nos ocuparem a ambos ao mesmo tempo.